Atropelamento  escrito em sexta 27 junho 2008 02:56

Emílio atravessara a rua num passo tão fragmentado que, a mim, que vi tudo, pareceu-me uma reprise dessas que se dão em flashes preto e branco. Mas estava colorido. O sangue era vermelho; a bílis, amarelenta. Emílio nunca mais foi o mesmo.

 

Fábio Mello

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No que chorou Adônis  escrito em sexta 27 junho 2008 02:54

Após seis meses nas profundezas do Inferno, Adônis encontra Afrodite a colher flores campestres num jardim ateniense. Travam o seguinte colóquio.

 

 

Adônis

 

– Por tudo o que te fiz, mereço, no mínimo, uma ínfima recompensa.

 

Afrodite

 

Sinto em dizer. Teu muito não encheu o balão das minhas necessidades. Quanto mais fê-las levitar. Agora diga: ao que se refere tua “ínfima recompensa”?

 

Adônis

 

– À tua rubra... irretocável... magna boca!

 

Afrodite

 

Minha boca?! Minha boca é a máxima recompensa!! Como podeis minorá-la com tal acento!?

 

Adônis

 

– Meu acento transcorreria o perímetro de teu corpo: monumento de extrema magnificência! obra apolínea dos deuses! regalo das almas dos trovadores! alter-ego da Perfeição!...

 

Afrodite

 

– Meu corpo é um composto de moléculas da mais fina, rara substância; é a essência do âmbar, do nácar, do rubi... Meu corpo é o lusco-fusco dum porvir risonho. Tu, por seres raso, ressequido e subterrâneo, jamais o terá! Nem a ele nem à minha boca, a qual não saliva, expele seiva! 

 

Adônis

 

Eu só pensei...

 

Afrodite

 

– De pensar ruiu a besta que, no fundo, só fazia ruminar. Teus pensamentos são tão ásperos que posso ver a areia a lhe escoar pelos ouvidos. Maior capacidade cognitiva tinha aquele javali, morto pelas mãos de Teseu.

 

Adônis

 

– Teu corpo...

 

Afrodite

 

– Meu corpo é mais do que pensas! E muito para você – sentenciou Afrodite, no que chorou Adônis.

Fábio Mello

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Temporada de Inverno  escrito em segunda 23 junho 2008 03:23

  Frio... demasiado frio... Os telhados das casas encapados pela neve espessa; as copas das árvores feito chumaços d’algodão doce. Caminhões de lenha transitando para lá e para cá: há que se abastecer os lares de toda a Angoulême. Nenhuma das milhares de lareiras poderá se apagar nos próximos seis meses.

     Luvas de couro, cachecóis de lã, casacos de pele de búfalo, calças de tecido grosso e recheado, botas especiais e chapéus de antílope são acessórios indispensáveis para se suportar a baixa temperatura. É imprescindível a provisão de alimentos ricos em gorduras; de ervas aromáticas para a feitura de chás que calçam o peito; de cigarros, licores, vinhos, acolchoados, preservativos, cd’s, filmes, telas virgens, beijos, compotas, jogos, livros... Esses tempos prometem resfriados constantes e gripes rigorosas. Ah, quase me esqueço: deve-se ter por companhia não uma paixão com os dias contados, mas um amor de dias intermináveis.

 

Fábio Mello

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O Céu de Beatriz  escrito em sexta 20 junho 2008 03:28

Li tantos romances que fiquei esperando um amor do séc. XIX. Verdade é que amei mais personagens que mulheres de verdade. Amei princesas, rainhas, coquetes, musas de um tempo que não o meu. Entre tantas, nem ao menos uma dessas grisetes de lupanar obscuro acordara em minha cama. Tinham todas muito do que eu era, absolutamente nada do que esperava encontrar. Eram símbolos de uma imaginação apaixonadamente volátil.

E foi em Beatriz que alcancei o absurdo. Com ela fiz o que Dante sequer imaginara. Saímos os dois numa ultra-odisséia pelo cosmos infinito. E justamente por isso, Dante a Caronte se associara. O próprio Virgílio, ciente de nosso enlace, a Lúcifer se oferecera. E todos os anjos do empíreo, e todos os diabos do inferno se reuniram à contemplação de nosso amor.

Pedindo-a em casamento respondeu-me que topava, mas não de verdade. Disse que comigo respiraria poesia; que de meus versos se doparia; que trocaríamos sextilhas... redondilhas... maravilhas... o cacete!...

Como estava bela em tal instante! Tão bela que acabei propondo-lhe trocássemos não somente sextilhas e redondilhas. Que trocássemos “ quadradilhas”, “retanguilhas", "trianguilhas". Propus-lhe poliedros e mais poliedros de sensações. Só não nos casamos naquele mesmo momento porque o cartório estava fechado.

 

Beatriz!!! Beatriz!!! Beatriz!!!

 

Daria todo o meu discurso pelo silêncio de teu peito; daria minha vida para não sair de teus olhos. Saiba: foste a eleita pra dobrar comigo à esquina do mundo. Partindo, não carregaste apenas meu encanto, meu sonho, minha utopia. Carregaste a mim mesmo, que em teu ego fiz morada.

Meu cerne, de tuas vontades repleto, é oco agora que em campos outros te realizas. Meus ossos, de tua carne encapados, são pedra-pomes aquém de teu calor. A dor é toda minha se teu peito agonizar.

 

Bia, quem dera o encontro de nossas bandas formasse som diferente!

Quem dera debaixo de chuva “carpediássemos” contentes.

Quem dera unos e plenos andássemos os dous pela rua...

     Inda agora leio-te em meu colo. Tuas melenas a me envolver as coxas nuas...

 

Fábio Mello

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O nec plus ultra da evolução  escrito em sexta 06 junho 2008 03:26

Paula é a mulher mais fantástica que já conheci. Tem 18 anos desde que nasceu. Não come, não dorme, não adoece, não entristece, não envelhecerá. Terá sempre os seus 18 aninhos sem nunca adquirir uma estria. A mínima ruga não lhe será possível. Linda, sorriso permanente, jamais entra em crise ou perde o tesão. É mesmo capaz de transar por toda a eternidade.

Pedro é seu semelhante, logo, dotado dos mesmos predicados. São ambos sexualmente ativos e passivos. Representam o último grau da teoria evolucionista. O qual nem Darwin suporia.

E de macacos fomos homens. De homens, seremos “espectros virtuais”. Alcançaremos o dístico supremo: infinitude e perfeição. Já não precisaremos de instinto, inteligência, sensibilidade, alma. Nada disso. Seremos uma nação virtualmente serena.

 

 Fábio Mello, um dia escuro de um tempo estranho  

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