Li tantos romances que fiquei
esperando um amor do séc. XIX. Verdade é que amei
mais personagens que mulheres de verdade. Amei princesas, rainhas,
coquetes, musas de um tempo que não o meu. Entre tantas, nem
ao menos uma dessas grisetes de lupanar obscuro acordara em minha
cama. Tinham todas muito do que eu era, absolutamente nada do que
esperava encontrar. Eram símbolos de uma
imaginação apaixonadamente
volátil.
E foi em Beatriz que alcancei o
absurdo. Com ela fiz o que Dante sequer imaginara. Saímos os
dois numa ultra-odisséia pelo cosmos infinito. E justamente
por isso, Dante a Caronte se associara. O próprio
Virgílio, ciente de nosso enlace, a Lúcifer se
oferecera. E todos os anjos do empíreo, e todos os diabos do
inferno se reuniram à contemplação de nosso
amor.
Pedindo-a em
casamento respondeu-me que topava, mas
não de verdade. Disse que comigo respiraria poesia; que de
meus versos se doparia; que trocaríamos sextilhas...
redondilhas... maravilhas... o cacete!...
Como estava
bela em tal instante! Tão bela que acabei propondo-lhe
trocássemos não somente sextilhas e redondilhas. Que
trocássemos “ quadradilhas”,
“retanguilhas", "trianguilhas". Propus-lhe poliedros e mais
poliedros de sensações. Só não nos
casamos naquele mesmo momento porque o cartório estava
fechado.
Beatriz!!! Beatriz!!!
Beatriz!!!
Daria todo o meu discurso pelo
silêncio de teu peito; daria minha vida para não sair
de teus olhos. Saiba: foste a eleita pra dobrar comigo à
esquina do mundo. Partindo, não carregaste apenas meu
encanto, meu sonho, minha utopia. Carregaste a mim mesmo, que em
teu ego fiz morada.
Meu cerne, de tuas vontades repleto,
é oco agora que em campos outros te realizas. Meus ossos, de
tua carne encapados, são pedra-pomes aquém de teu
calor. A dor é toda minha se teu peito
agonizar.
Bia, quem dera o encontro de nossas
bandas formasse som diferente!
Quem dera debaixo de chuva
“carpediássemos”
contentes.
Quem dera unos e plenos
andássemos os dous pela rua...
Inda
agora leio-te em meu colo. Tuas melenas a me envolver as coxas
nuas...
Fábio
Mello
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